Por trás desse debate que surgiu nos últimos dias, vejo sintomas de um problema muito mais grave do que discussão em si. Então trago aqui um desabafo e 3 pontos de vista: legal, social e empresarial.

Começando pelo desabafo, esse tipo de discussão acalorada e cheira de opiniões demonstra um problema de comportamento cada vez mais evidente na nossa sociedade. Uma verdadeira doença. Sinceramente não sei se isso sempre existiu (e as redes sociais deram voz) ou se as pessoas estão ficando cada vez mais limitadas e ignorantes (devido ao “emburrecimento” que os algoritmos de redes sociais causam).

Em primeiro lugar, esse tipo de assunto não é binário (sim ou não, certo ou errado). É preciso entender diversos pontos de vista. Dar uma opinião pronta e fechada para um assunto complexo não é se posicionar, mas sim demonstrar limitação de visão e de inteligência.

Outro ponto é que existe uma linha tênue entre liberdade de expressão e falta de noção do seu lugar no mundo. Antes de expor uma opinião, é preciso ter um mínimo de embasamento naquele assunto. O que mais vi foram pessoas que não entendem sobre gestão empresarial, contexto político-social e jurídico defendendo com unhas e dentes seus posicionamentos, com textos enormes e falsos moralismos, dando palpite na vida e na empresa dos outros. Pessoas que não conseguem cuidar nem de um gato, mas querem criticar o que uma empresa de sucesso, que emprega milhares de pessoas e que faz diversas benfeitorias. Pessoas que nunca geriram ao menos 5 pessoas de forma bem feita são as que mais vi criticando o posicionamento da empresa.

Esse tipo de atitude chega a ser lunática e atrasa totalmente o seu crescimento. Desperdiçam suas energias preocupadas com a vida dos outros ao invés de olhar para o seu. Isso arruína a sua vida, pois você fica o dia inteiro preocupado em vomitar opinião do que está acontecendo na vida dos outros, preso nesse “buraco negro” de opinião de rede social e se esquece de cuidar do seu desenvolvimento, das suas finanças e dos seus negócios. Além disso, na maior parte das vezes, a melhor forma de aprender é ficando calado, observando e entendendo o que essas pessoas e empresas estão fazendo (que, diga-se de passagem, são muito maiores e mais bem-sucedidas do que você).

Sinceramente eu não tenho a resposta para essa situação. A atitude da empresa foi certa ou errada? Quem sou eu pra dizer? A única coisa aqui que tenho certeza é que esse comportamento de manada não está certo. Como se o mundo ou a visão das outras pessoas fosse mudar graças a sua opinião. A única coisa que vai acontecer é gerar brigas com quem já discorda de você e gerar “aplausos” de gente que já concorda com você. Que fruto isso te gera? No máximo um pouco de dopamina para massagear seu ego problemático.

Antes de formar esse raciocínio a seguir, escutei diversos pontos de vista, tanto da empresa (do Fred Trajano), quanto de investidores (como Henrique Bredda da Alaska ou meu amigo Tio Huli). Escutei até as opiniões mais extremas (e ignorantes), tanto de “direita” quanto de “esquerda” (que geralmente são os extremos mais burros).

Isso tudo que estou dizendo é sobre um ponto de vista coletivo e não individual. Não estou dizendo que você “tem que pagar essa conta” por problemas do passado (se for branco) e muito menos que você tem que se vitimizar (se for negro). Estou apenas dizendo que através de quem tem influencia social, seja como político ou como um grande empresário, por exemplo, temos sim que, na medida do possível tentar ir equalizando as coisas e tentar ter menos diferenças no mundo, pois isso torna o mundo melhor. Vamos falar rapidamente sobre os 3 pontos de vista: legal, social e empresarial.

 

1) LEGAL: Esse é o ponto de vista que eu menos entendo. Há argumentos de que possa configurar discriminação. Talvez seja, não sei. Nossa lei é complexa e cabe diversas interpretações a depender do contexto. Só sei que a Magazina Luiza tem um time jurídico muito forte e provavelmente sabe onde está pisando. Independente disso e do que a justiça decidir, isso não é problema meu. Inclusive quase tudo no Brasil sempre tem algum risco jurídico, então tomamos decisões empresariais baseadas no risco-retorno e no custo-benefício daquela decisão.

 

2) SOCIAL: Se alguém negar que existe diferença de oportunidades entre negros e brancos só pode ser cego. Basta você observar as diretorias e altos cargos da esmagadora maioria das empresas. Inclusive o argumento usado por aí sobre o fato de a diretoria toda ser branca, dizendo ser hipocrisia da Magalu, só confirma ainda mais o fato e não o contrário. É de uma ignorância e incapacidade de interpretação da situação impressionante.

A questão a ser discutida é: onde está a causa do problema? Onde está a raiz disso e não apenas observar os sintomas. Se houve sempre muito mais candidatos brancos do que negros, então a questão não é a meritocracia, mas sim o acesso a oportunidade. Seja por não ficar sabendo, por não achar que é para ele (alguma “síndrome de inferioridade”) ou até por racismo mesmo  (nesse caso, na hora de divulgar a informação das vagas). E segundo a empresa e quem conhece de perto, esse é o caso aqui.

Se houve sempre quantidade de candidatos proporcional de cor (o que não é o caso aqui), então temos um problema na base educacional ou de racismo mesmo (nesse caso, na hora do processo seletivo). Afinal, não existe diferença de capacidade, inteligência e performance de acordo com a cor. Se o problema está na base (social e educacional) ou não, lógico que essa iniciativa da Magazine Luiza não é a solução final, mas uma única atitude pontual, como incentivo, não vai mudar a meritocracia como um todo. Não vai ser uma única atitude com incentivo a 30-40 treinees (em uma população de 215 milhões de pessoas) que vai fazer a “meritocracia” inteira deixar de existir. É muito extremismo irracional.

 

3) EMPRESARIAL: Por um lado, falando de empresas privadas (e não de um contexto político-social), gestão com meritocracia pura é o que gera retorno para um negócio. Não há o que discutir. Por outro lado, diversos estudos recentes têm mostrado que a diversidade também gera mais retorno para os negócios. Seja diversidade de gênero, raça, sexualidade ou outras. Mais pessoas diferentes pensando juntas e um ambiente que trás liberdade parece ter se mostrado benéfico para as empresas também.

Sendo assim, qual o melhor? Não sei e nem a Magazine Luiza sabe. Empresas boas cada vez mais têm usados testes antes de chegar a uma conclusão sobre qualquer premissa. Ao fazer pequenos testes com alguns poucos treinees, se não for uma iniciativa bem sucedida, não faz a menor diferença no resultado da Magalu. E se der certo, podem fazer testes cada vez maiores nesse sentido. Simples assim.

Outra questão é: quem disse que seleção/recrutamento define a performance da pessoa? Uma prova define se a pessoa é inteligente e capaz? O que mais temos é exemplos de pessoas que não iam bem na escola/faculdade e se tornaram super bem-sucedidas. Quem é gestor na prática está cansado de saber que, mesmo que um processo de recrutamento e seleção seja muito bem estudado, isso não define nada. Você vai saber quem é a pessoa no dia a dia. E se esses trainees valorizarem a iniciativa e abraçarem a oportunidade gerando muito mais resultado do que a gente esperava?

Não dá pra saber, quem somos nós pra palpitar em uma empresa desse tamanho e que faz tanta coisa bem feita há tanto tempo. Deixe-os testarem, fique calado e aprenda um pouco. Se der certo, ótimo. Se não deu certo, tudo bem, passa a régua e não vamos fazer mais isso.

Tem jogada de marketing junto? Pode ser que tenha, talvez. Não me interessa se há mais interesses, desde que a intenção principal seja boa. Até porque todos nós temos interesses por trás de quase tudo o que fazemos. Eu, por exemplo, estou dando minha opinião aqui apenas para educar o Brasil? Não, estou aqui pra atrair pessoas que pensam como nós. Isso me gera negócios e retorno depois. Todos nós fazemos isso, os que mais criticam inclusive geralmente são os mais hipócritas.

 

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